Pesquisa aponta pressão política sobre autonomia de professores
Levantamento da FGV e da CNTE ouviu 2.235 docentes e identificou temor de consequências profissionais e aumento da vigilância em sala de aula
Mais de seis em cada dez professores ouvidos em uma pesquisa afirmam que a pressão política limita diretamente sua autonomia para lecionar. O levantamento também mostra que 75,6% temem sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos.
Realizado pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), o estudo ouviu pela internet 2.235 professores dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, em todas as regiões do país. As entrevistas foram feitas entre 23 de junho e 20 de agosto de 2026.
Segundo a pesquisa Politização no Cotidiano das Escolas: um olhar para a prática docente, divulgada em 22 de setembro, 61,7% dos docentes dizem ter a autonomia afetada pela pressão política. O levantamento aponta ainda que 71,7% se sentem mais expostos a críticas políticas do que em períodos anteriores.
Para 66,8% dos entrevistados, até atitudes rotineiras em sala de aula podem ser distorcidas e interpretadas como manifestações políticas. O estudo relaciona esse ambiente à politização de temas como gênero, sexualidade e religião, que, segundo os pesquisadores, aumentou a sensação de vigilância e insegurança profissional.
Impactos sobre a carreira docente
Os autores descrevem um contraste entre a autonomia defendida em diretrizes pedagógicas e a experiência relatada pelos professores no cotidiano escolar. Na avaliação apresentada pela pesquisa, a restrição percebida contribui para a desvalorização da carreira.
O levantamento cita uma projeção do Instituto Semesp, feita em 2025, de déficit superior a 235 mil professores até 2040. De acordo com o material, o estudo relaciona a estimativa às condições insuficientes de trabalho. A nota técnica da FGV e da CNTE também menciona movimentos como o Escola Sem Partido e a atuação de parlamentares que acusam docentes de “doutrinação ideológica”.
Outro dado citado vem do Observatório Nacional da Violência contra Educadores. O órgão mapeou mais de 3 mil profissionais entre 2010 e 2024; conforme o material, a maioria presenciou, sofreu ou soube de episódios de censura relacionados a temas políticos, de gênero e sexualidade, religiosos, étnico-raciais ou de negacionismo científico.
“Esta pesquisa traz mais uma evidência de como a atuação dos profissionais dos serviços públicos vem sendo profundamente afetada, nos últimos anos, pelo aumento da politização e da polarização em torno das políticas públicas”, afirmou a professora Gabriela Lotta, uma das responsáveis pelo estudo.
Segundo Lotta, os efeitos não atingem apenas os profissionais, mas também os cidadãos, que podem ter o acesso a serviços e direitos afetado pelas disputas políticas e pelo ambiente polarizado.
Como resposta, a pesquisa recomenda a revitalização da escola democrática e a criação de salvaguardas institucionais para que os professores possam exercer a autonomia com segurança e respaldo.
