Lula avalia riscos dos debates na TV frente à oposição direita
Os principais candidatos à presidência do Brasil já estão em plena campanha, intensificando suas estratégias à medida que as eleições se aproximam. Com o calendário eleitoral em vista, as decisões práticas começam a ganhar destaque, especialmente em relação à participação nos debates, um elemento crucial para a exposição dos candidatos.
Embora os debates não tenham o mesmo peso que em eleições passadas, quando a televisão dominava a comunicação política, eles ainda são relevantes. Uma pesquisa do Datafolha realizada em março de 2026 revelou que os meios de comunicação tradicionais continuam a ser fundamentais: 66% dos eleitores de Lula e 61% dos eleitores de Jair Bolsonaro citam a TV e as redes sociais como suas principais fontes de informação política.
Essa dinâmica modifica a forma como as campanhas abordam os debates, que agora são vistos mais como material para cortes e memes que circulam nas redes sociais, do que como eventos isolados de importância.
Participação nos debates
No cenário atual, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) busca visibilidade para se destacar na corrida, enquanto no PT e no governo ainda não há uma decisão clara sobre a participação de Lula nos debates. A estratégia de Lula nesta pré-campanha não é repetir a abordagem de Fernando Henrique Cardoso (psdb) em 1998, que se ausentou de todos os debates, nem a de 2006, quando ignorou os encontros do primeiro turno.
A intenção é encontrar um equilíbrio entre proteger o presidente de debates considerados improdutivos e evitar a imagem de “fugir da briga”.
As emissoras de televisão já agendaram três debates:
- 16 de agosto — na Band
- 14 de setembro — em um pool de emissoras, incluindo CNN Brasil, SBT e RedeTV!
- 27 de setembro — na RecordTV
Um debate na Globo também está previsto para a véspera do primeiro turno, mas a data ainda não foi definida. A campanha de Lula está em diálogo com os canais e considera a possibilidade de sua participação em apenas dois ou três debates no primeiro turno, dependendo das pesquisas e do clima da opinião pública. A decisão deve ser tomada até meados de julho, e não há discussões sobre um possível segundo turno.
Estratégia de comunicação
A estratégia de Lula busca compensar uma participação mais seletiva nos debates com uma presença mais frequente em entrevistas e sabatinas, visando um ambiente mais propício para discutir propostas e temas relevantes para a campanha.
Atualmente, Lula é o único candidato fora da direita a receber convites para os debates, o que o torna o alvo principal de adversários como Flávio Bolsonaro, Augusto Cury (avante) e Ronaldo Caiado (PSD), que até o momento permanecem próximos ao bolsonarismo. A legislação exige a participação de candidatos de partidos que elegeram mais de cinco representantes no Congresso em 2022.
Na eleição de 2022, nomes como Simone Tebet (então no psb) e Ciro Gomes (então no pdt) representavam uma oposição mais robusta à extrema-direita. Agora, essa responsabilidade recai exclusivamente sobre Lula.
Apesar do cenário, o PT não expressa preocupação com o possível isolamento de Lula nos debates. O secretário nacional de Comunicação do partido, Eden Valadares, afirmou que o objetivo é unir as “forças democráticas” em torno de Lula desde o primeiro turno. Se isso resultar em uma maior solidão nos debates, a resposta é de paciência.
“Essa será a sétima candidatura dele. A performance de Lula em debates, independentemente do número de adversários, não é motivo de preocupação”, declarou Valadares. “Lula é a maior liderança política do País. O formato do debate não nos afeta.”
Ele reconheceu que, embora os debates ainda tenham importância, seu impacto é menor do que em eleições anteriores, como em 1989, quando os brasileiros se reuniam em torno da televisão. “Hoje, a TV é a segunda tela em nossas vidas”, completou.
Questões prioritárias
Entre os temas que mais preocupam a campanha de Lula está a segurança pública, especialmente em relação ao crime organizado. A avaliação interna é de que esse será um dos pontos mais sensíveis para o governo na disputa. Para enfrentá-lo, a orientação é calibrar o discurso e focar na defesa da soberania nacional.
A proposta é que Lula aborde questões como o aumento de tarifas, as ameaças ao Pix e os eventos que ocorreram após as eleições de 2022. A estratégia inclui associar Flávio Bolsonaro a seu pai, Jair Bolsonaro, caracterizando o senador como um “poste” do ex-presidente, uma tática similar à utilizada contra Fernando Haddad em 2018.
Histórico de debates
Desde a redemocratização, a relevância dos debates presidenciais tem variado conforme o contexto político:
- 1989: Oito debates, com Fernando Collor não participando do primeiro turno.
- 1994: Apenas um encontro entre Lula e FHC.
- 1998: Nenhum debate entre candidatos à presidência.
- 2002: Quatro debates, com Lula participando de três no segundo turno.
- 2010: Recorde de 13 debates na eleição de Dilma Rousseff.
- 2018: Ausência dos dois principais candidatos, Bolsonaro e Lula, nos debates.
Em 2022, ocorreram três confrontos diretos entre Lula e Bolsonaro no primeiro turno, seguidos de dois no segundo turno.
