Aliados históricos criticam fragilidade da Abin e exigem projeto de Lula
A geopolítica global enfrenta um momento desafiador, com intensas disputas por poder econômico, recursos petrolíferos e minerais essenciais. Nesse contexto, a importância de um sistema de inteligência e contrainteligência eficaz se torna ainda mais evidente, especialmente para um país do porte do Brasil.
A estrutura da Agência Brasileira de Inteligência, conhecida como Abin, é considerada insuficiente para os desafios atuais. Um colaborador do governo, que preferiu não ser identificado, optou por não comentar a situação, mas figuras influentes ligadas ao partido dos trabalhadores (PT) expressaram críticas contundentes. José Genoino, ex-presidente do PT, afirmou que “o Brasil carece de uma inteligência de Estado” e destacou a falta de informações necessárias para enfrentar a crise gerada pelo trumpismo. Segundo ele, a Abin se encontra “no limbo” e sugeriu que o programa de governo de Lula para a reeleição deve priorizar a inteligência como uma questão estratégica.
Ricardo Berzoini, também ex-comandante do PT, reforçou a urgência de abordar o tema, afirmando que “a crescente relevância da inteligência artificial e a importância dos recursos naturais exigem uma estrutura de inteligência robusta”.
Debate sobre inteligência
Na última quinta-feira, 9 de outubro, Genoino e Berzoini participaram de um seminário em Brasília, intitulado “Inteligência de Estado na democracia”, promovido pela Intelis, entidade que representa os oficiais da Abin, e pela Universidade Popular (Unipop). José Dirceu, outro ex-presidente do PT, também esteve presente. Apesar de convites estarem abertos a parlamentares, ninguém compareceu, o que foi considerado um indicativo dos desafios enfrentados para fortalecer o serviço de inteligência nacional. Acilino Ribeiro, reitor da Unipop e um dos autores de uma proposta de reformulação da Abin, entregou um documento ao governo de transição antes da posse de Lula.
Ribeiro apontou que organizações como a CIA e o Mossad atuam junto ao Congresso para impedir que a Abin receba emendas parlamentares. De acordo com dados do portal Siga Brasil, entre 2019 e 2026, o Congresso alocou apenas 14 milhões de reais em emendas para a Abin, enquanto o total de emendas cresceu de 13 bilhões para 50 bilhões de reais.
Orçamento limitado
Atualmente, a Abin conta com um orçamento de 933 milhões de reais, mas um terço desse montante é destinado a pagamentos de servidores aposentados. Apenas 81 milhões, menos de 10% do total, são reservados para atividades de “informação e inteligência”. Em comparação, a CIA possui um orçamento anual de 14 bilhões de dólares, e até mesmo o serviço de inteligência da Argentina possui mais recursos que a Abin.
Além da questão orçamentária, a Abin enfrenta problemas estruturais. Um oficial de inteligência, que pediu para não ser identificado, criticou a falta de diretrizes do governo para a agência, afirmando que “não podemos participar do jogo geopolítico mundial sem uma inteligência civil”. Outro funcionário destacou a ausência de liderança clara na Casa Civil.
Após os eventos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, Lula decidiu transferir a Abin da Gabinete de segurança Institucional (GSI), um órgão militar, para a Casa Civil. José Dirceu classificou a extinção do GSI, feita por Dilma Rousseff, como “uma das decisões mais acertadas”. Ele argumentou que os militares frequentemente agem de forma independente em questões de inteligência e política externa, guiados por interesses próprios, em vez de focar nas necessidades do Brasil.
Os participantes do debate concordaram que, em geral, a visão militar sobre a inteligência tende a ser influenciada pela ideia de um “inimigo interno”, uma mentalidade que remete à repressão durante a ditadura militar que perdurou de 1964 a 1985. Genoino observou que essa “cultura” também afeta a Abin, caracterizando a atividade de inteligência como dominada pela percepção de ameaças internas. Ele concluiu que o autoritarismo presente em várias instituições do país é um legado da história colonial e escravocrata do Brasil.
