Estudo aponta que calor recorde na Europa é resultado das mudanças climáticas
Pesquisadores especializados no impacto das mudanças climáticas em eventos meteorológicos extremos afirmam que as altas temperaturas observadas recentemente na Europa Ocidental seriam “praticamente impossíveis” de ocorrer nesta época do ano em 1976, um período também caracterizado por calor intenso.
De acordo com os cálculos, uma onda de calor semelhante à atual teria sido 3,5°C mais amena durante o dia e 2,4°C mais fria à noite em 1976. Theodore Keeping, do Imperial College London e um dos autores do estudo, destacou: “Nos últimos 50 anos, o planeta aqueceu 1,1°C, aumentando significativamente a probabilidade de uma onda de calor como esta. Este evento não teria ocorrido em junho sem as mudanças climáticas.”
Fenômeno meteorológico
A Europa Ocidental enfrenta temperaturas extremas há mais de uma semana, resultado de um fenômeno denominado “bloqueio ômega”, que impede a movimentação normal da corrente de jato. Em condições comuns, essa corrente transporta sistemas meteorológicos de oeste para leste. Contudo, durante um bloqueio ômega, o fluxo é interrompido, fazendo com que os sistemas de pressão permaneçam isolados e estacionários.
Esse fenômeno resulta em ventos mais fracos e contrastes de temperatura que favorecem padrões climáticos persistentes. Assim, uma vasta massa de ar quente da África se encontra retida sobre a região, comprimida por sistemas de alta pressão em altitudes elevadas. Segundo Friederike Otto, também do Imperial College London, “o fenômeno em si não é incomum, mas as temperaturas atuais sim, ou pelo menos eram antes das mudanças climáticas induzidas pela ação humana”.
Causas do aquecimento
Os pesquisadores identificam que o aquecimento recente é principalmente resultado do uso intensivo de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, além do desmatamento. Para o estudo, cientistas de vários países europeus compararam dados meteorológicos atuais e previsões com registros históricos de 2003 e 1976. Embora o estudo tenha sido divulgado de maneira preliminar e ainda não tenha passado pela revisão por pares, os autores afirmam que a metodologia utilizada é amplamente reconhecida pela comunidade científica.
Estatisticamente, as noites excepcionalmente quentes são agora cerca de 100 vezes mais prováveis do que durante a onda de calor de 2003, enquanto os picos de calor diurno tornaram-se aproximadamente dez vezes mais prováveis, conforme os cálculos. Além disso, os cientistas descartaram qualquer influência significativa do fenômeno natural El Niño, que pode causar variações climáticas em várias partes do mundo. Segundo os especialistas, o El Niño não teve “nenhum papel” nesta onda de calor.
Consequências para a saúde
Friederike Otto também alertou para os riscos do chamado “estresse térmico”, uma condição em que o corpo não consegue regular sua temperatura em situações de calor extremo. O estudo revela que cerca de 45% das 854 cidades analisadas em 30 países europeus já atingiram ou estão prestes a atingir seus recordes históricos de estresse térmico. Esse fenômeno é particularmente preocupante quando as temperaturas noturnas permanecem quase tão elevadas quanto as diurnas.
A análise baseia-se no índice de temperatura de globo e bulbo úmido (WBGT), que considera não apenas a temperatura do ar, mas também fatores como umidade e radiação solar. Este índice é amplamente utilizado para avaliar os riscos associados ao calor extremo, especialmente em atividades esportivas e ocupacionais.
