Lula busca apoio de herdeiros de adversários em Minas

Quando o presidente Lula (PT) chegou a Minas Gerais na semana passada, sua agenda estava repleta de compromissos na área da saúde. Entretanto, horas após sua chegada, ele retornou a Brasília sem resolver uma questão crucial para sua reeleição: a definição do candidato ao governo mineiro representando o campo lulista.

Nenhum dos três principais nomes cogitados para a chapa esteve presente ao lado de Lula durante a visita. Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem e atualmente pré-candidata ao Senado, optou por não comparecer. Gabriel Azevedo (mdb), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte e pré-candidato ao governo, também não esteve presente, assim como Jarbas Soares Júnior (psb), ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.

Durante seu discurso, Lula abordou temas como sua infância marcada pela fome em Pernambuco, o programa ProUni e sua mãe analfabeta. Embora tenha sido aplaudido pela multidão, a expectativa dos petistas mineiros de vê-lo acompanhado de um candidato definido para as eleições de outubro não se concretizou.

Impasse na candidatura

O impasse surgiu de uma aposta que não se concretizou. Lula dedicou quase um ano em Rodrigo Pacheco (PSB), ex-presidente do Senado. O PT mineiro paralisou seu debate interno aguardando uma definição, mas, após meses de especulações e negativas, Pacheco anunciou sua saída da vida pública, deixando o partido sem alternativas.

A partir desse momento, a busca por novos nomes se intensificou. Apareceram como opções Josué Gomes da Silva (PSB), empresário e filho do ex-vice-presidente José Alencar, que enfrenta dificuldades financeiras em sua empresa, e Alexandre Kalil (pdt), ex-prefeito de Belo Horizonte, que foi derrotado no primeiro turno por Romeu Zema (Novo) em 2022.

Outras alternativas, como Sandra Goulart, ex-reitora da UFMG, e os deputados federais Reginaldo Lopes (PT) e Rogério Correia (PT), também foram consideradas, mas sem sucesso. O diretório estadual do PT aprovou uma resolução que defendia uma candidatura própria, mas o partido ainda busca opções fora de seus quadros.

Marília Campos como alternativa

Entre os membros do PT, Marília Campos continua sendo a opção mais competitiva, embora relutante em assumir a candidatura. Sua preferência pelo Senado não é uma decisão aleatória; ao deixar a prefeitura de Contagem, ela comprometeu-se a concorrer ao Senado, com o apoio da direção estadual do partido.

Pesquisas internas indicam que Marília é forte tanto para o governo quanto para o Senado, mas ela prefere evitar o desgaste de uma disputa contra Cleitinho Azevedo (republicanos), que lidera as intenções de voto.

A ausência de Marília nas agendas de Lula em Belo Horizonte e Divinópolis parece ter sido uma estratégia para escapar da pressão direta do presidente e de aliados que tentam convencê-la a mudar de rumo. Após a viagem, sua equipe intensificou ações para consolidar sua imagem de pré-candidata ao Senado.

Histórico de dificuldades

A resistência de Marília reflete a experiência de quem já enfrentou situações semelhantes. Aceitar ser uma escolha de última hora, após a desistência de Pacheco e outros nomes, é visto como um plano C.

Historicamente, o PT mineiro enfrentou o oposto: havia muitos quadros disputando espaço, como Patrus Ananias, Fernando Pimentel, Luiz Dulci e Nilmário Miranda, todos ministros em governos petistas. Atualmente, a discussão gira em torno de quem aceitará representar a legenda.

A queda do partido remonta a 2008, quando Pimentel, então prefeito de Belo Horizonte, articulou a eleição de Marcio Lacerda (PSB) em uma aliança com o governador Aécio Neves (psdb). Essa aliança resultou em vitórias, mas deixou os petistas locais com a sensação de que o acordo prejudicou o partido.

As últimas três candidaturas do PT à prefeitura de Belo Horizonte tiveram resultados decepcionantes, com votações de 7,27%, 1,88% e 4,37%, sem que nenhuma alcançasse uma colocação melhor que a quarta. A lacuna na capital não foi preenchida por um nome competitivo do próprio partido, levando Lula a considerar opções que antes seriam improváveis em um palanque petista.

Novas possibilidades

Gabriel Azevedo, que iniciou sua carreira política no PSDB, se tornou um adversário político de Kalil. Atualmente, como pré-candidato pelo MDB, ele tem conversado com figuras do PT e com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Sua aproximação com lideranças do PT levanta preocupações entre os auxiliares de Lula, que temem que uma boa votação o transforme em um rival natural para a prefeitura em 2028 ou para o governo em 2030.

Jarbas Soares Júnior, que também é cogitado, possui um histórico como procurador-geral de Justiça, indicado por Aécio Neves e por Zema. Sua entrada na política é vista como uma tentativa de transformar seu capital institucional em uma candidatura viável.

A possibilidade de apoiar um nome associado aos dois maiores adversários do PT em Minas reflete o esgotamento do partido, que hoje enfrenta um cenário desafiador. Em meio a essa busca por candidatos, Cleitinho Azevedo lidera as pesquisas, mas ainda não decidiu se disputará o governo ou se aceitará uma vaga como vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL).

O atual governador de Minas, Mateus Simões (PSD), não tem conseguido converter a estrutura estadual em popularidade, enfrentando um carisma quase negativo. A trajetória de Lula, que sempre construiu poder por meio de alianças pragmáticas, enfrenta agora um desafio inédito: após uma série de apostas frustradas, ele se vê sem candidato no segundo maior colégio eleitoral do país.

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