Herança bélica dos anos 80 molda a geopolítica militar do Irã
O conflito entre Irã e Iraque, que ocorreu entre 1980 e 1988, reconfigurou profundamente as Forças Armadas iranianas, que agora se afastam de uma dependência de poderio convencional. A nova doutrina militar do Irã enfatiza o uso de mísseis balísticos, drones de baixo custo e uma rede de milícias aliadas, refletindo uma adaptação necessária diante da realidade de um isolamento internacional severo e de um inimigo bem equipado.
Contexto histórico
Com cerca de 500 mil mortes, a guerra entre Irã e Iraque se consolidou como o conflito convencional mais mortal do século XX entre nações em desenvolvimento. Durante esse período, o regime de Teerã percebeu que não conseguiria competir em um campo de batalha tradicional, especialmente contra forças ocidentais que dispunham de recursos financeiros e armamentos superiores. A análise das táticas atuais do Irã exige uma compreensão da brutalidade e das lições aprendidas durante essa guerra.
A invasão iraquiana
Em setembro de 1980, Saddam Hussein, então presidente do Iraque, lançou uma invasão ao Irã, aproveitando-se da instabilidade política causada pela Revolução Islâmica de 1979. A expectativa de uma vitória rápida se transformou em um impasse sangrento, onde as forças iranianas conseguiram conter o avanço inicial.
O cenário de combate tornou-se semelhante ao da Primeira Guerra Mundial, caracterizado por extensas trincheiras, artilharia pesada e o uso de armas químicas pelo Iraque. Sem o acesso a suprimentos militares, o Irã adotou táticas extremas, como:
- Ondas humanas: Envio de jovens voluntários para enfrentar campos minados e linhas de metralhadoras inimigas.
- Guerra nas cidades: Sob bombardeios intensos, o Irã sofreu ataques com mísseis Scud que visavam centros urbanos e a infraestrutura civil.
Mudanças na hierarquia militar
O conflito resultou em uma reestruturação significativa das forças armadas do Irã. As forças regulares, conhecidas como Artesh, enfrentaram sanções e purgas que comprometeram seu funcionamento. Sem recursos para manter suas aeronaves, os engenheiros militares foram forçados a improvisar.
Em resposta, o regime centralizou recursos no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que passou a liderar as operações militares. As novas diretrizes estratégicas incluem:
- Desenvolvimento de um complexo industrial-militar autônomo, focado na produção de mísseis balísticos.
- Expansão do poder por meio de milícias regionais, financiando grupos no Líbano, Iraque e Iêmen.
- Implementação de táticas de assédio naval, especialmente no Estreito de Ormuz.
Estratégia de desgaste
A vulnerabilidade aérea enfrentada nos anos 1980 levou o Irã a se tornar um dos países com o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio. Essa lógica também impulsionou o desenvolvimento de drones. Atualmente, a estratégia iraniana busca desgastar financeiramente potências como Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo, focando não na conquista territorial, mas na exaustão logística.
- Drones de ataque como o Shahed-136 têm custo estimado de US$ 20 mil cada.
- Para interceptá-los, sistemas aliados disparam mísseis Patriot, que custam cerca de US$ 4 milhões, ou sistemas THAAD, cujo preço pode ultrapassar os US$ 12 milhões por disparo.
Analistas militares indicam que o objetivo de Teerã não é apenas atacar, mas esgotar os estoques de interceptadores sofisticados, testando a resistência financeira e a determinação das superpotências.
Desconfiança internacional
A experiência de combate sob isolamento reforçou o ceticismo do Irã em relação ao direito internacional e à onu. Durante a guerra, a comunidade internacional, temendo a propagação da revolução xiita, apoiou o Iraque com informações, recursos e armamentos, enquanto o Conselho de segurança hesitou em agir contra Saddam, mesmo diante do uso de armas químicas.
O conflito se encerrou em agosto de 1988, com a Resolução 598 da ONU, que restaurou as fronteiras pré-guerra, mas sem definir um vencedor ou exigir reparações. Essa inação diplomática deixou uma lição clara para os estrategistas iranianos: a sobrevivência do regime depende de sua capacidade de infligir danos aos adversários, e não de tratados ou acordos internacionais.
O cenário geopolítico atual é uma consequência direta dessa doutrina de cerco, com líderes militares do Irã sendo, em sua maioria, veteranos da guerra. Enquanto potências ocidentais investem em caças de última geração, a estratégia iraniana permanece focada em uma guerra de paciência, utilizando armamentos de baixo custo e táticas assimétricas para contornar a superioridade tecnológica adversária.
