Guerra no Sudão amplia crise de fome e revive tragédias históricas
Conflito iniciado em 2023 interrompe produção agrícola, desloca milhões e dificulta a chegada de alimentos e ajuda humanitária.
A guerra no Sudão transformou a atual crise de fome em uma das mais abrangentes da história recente do país, segundo historiadores e ativistas humanitários ouvidos pela Al Jazeera. O conflito entre o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), iniciado em abril de 2023, interrompeu a produção agrícola, desorganizou o comércio e dificultou o transporte de alimentos e de ajuda.
A deterioração se agravou a partir de 2024. O material relata que a guerra provocou situações de fome extrema no Sudão em 2024 e 2025, com o deslocamento de milhões de pessoas dentro e fora do país. A crise também atingiu serviços básicos e centros urbanos, além de áreas agrícolas.
Fome se espalha por áreas urbanas e rurais
Para o historiador social e ativista humanitário Abdullah al-Tijani, a dimensão territorial diferencia a crise atual de episódios anteriores. Segundo ele, em muitas das fomes históricas o impacto ficou concentrado em determinadas regiões, enquanto a capital e outras grandes cidades ainda mantinham acesso a serviços e itens essenciais.
Agora, de acordo com Al-Tijani, a insegurança alimentar alcançou centros urbanos e agrícolas nos estados de Cartum, Gezira, Sennar, Darfur e Cordofão. Ele atribui o agravamento à destruição de infraestruturas, à interrupção de grandes projetos agrícolas e aos ataques contra mercados, padarias e plantações. O ativista também citou a desorganização do sistema bancário e das redes de comunicação, que teria isolado regiões inteiras.
As restrições ao acesso humanitário e os atrasos na autorização para o trânsito de equipes de ajuda também dificultam a resposta. Al-Tijani acusou as partes em guerra de usar o controle sobre os alimentos como instrumento do conflito e afirmou que o financiamento internacional está abaixo do necessário para a dimensão da emergência.
Memória de crises anteriores
O Sudão já enfrentou grandes crises alimentares provocadas ou agravadas por secas, pragas e conflitos. Um dos primeiros episódios registrados ocorreu em 1684, durante o Sultanato Funj, quando a escassez de grãos no centro do país provocou deslocamentos e uma epidemia de varíola. Relatos históricos descrevem situações de desespero e o consumo de carne de cachorro.
Também houve crises associadas ao clima em 1750 e entre 1835 e 1838, durante o período de domínio otomano-egípcio, em meio à seca severa e à redução do nível do Nilo. A fome de 1888 e 1889, no governo de Khalifa Abdullahi al-Taashi, permanece especialmente presente na memória popular. Seca, pragas de gafanhotos e conflitos combinaram-se para provocar mortes em larga escala. Algumas estimativas apontam mais de 1 milhão de mortos, mas os números exatos são difíceis de estabelecer.
No século 20, a seca de 1984 atingiu o oeste do Sudão, incluindo Darfur e Cordofão, causando perdas de colheitas e rebanhos e deslocando centenas de milhares de pessoas para Cartum. A diferença apontada por especialistas é que a crise atual tem a guerra como causa central, e não um choque ambiental.
O pesquisador econômico Mohammed Abdul Rahman relacionou a insegurança alimentar à fragilidade histórica do setor agrícola, agravada pelo conflito. Entre os fatores citados estão o abandono das terras por agricultores deslocados, a instabilidade política, a falta de políticas agrícolas, o financiamento insuficiente, a ausência de garantias governamentais e a dependência de métodos tradicionais de cultivo.

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