Artistas dedicam até 310 horas mensais ao trabalho invisível de elaboração de editais
Amanda Rabelo, produtora cultural e artista de Marapanim, no Pará, dedica até 100 horas por mês apenas à elaboração e acompanhamento de editais e projetos culturais, sem garantia de retorno financeiro. Ela destaca o trabalho invisível que envolve leitura de regulamentos, elaboração de orçamentos, montagem de cronogramas e articulação com comunidades, além das atividades artísticas e de produção cultural que realiza publicamente.
Essa rotina, comum a muitos artistas que conciliam criação e gestão, revela um paradoxo: para conseguir trabalho, é necessário trabalhar primeiro, muitas vezes sem remuneração. Amanda ressalta ainda a concentração de oportunidades na capital e as barreiras enfrentadas no interior do Pará, como dificuldade de acesso à internet, documentação e formação técnica, além do desafio de adequar práticas culturais tradicionais à linguagem burocrática dos editais.
Uma pesquisa realizada no mês de julho de 2026 com sete artistas de diferentes regiões do Brasil, incluindo Amanda, mostra a extensa dedicação mensal a essas tarefas. As estimativas variam de 30 horas, como no caso de Mayara Assis, a até 310 horas, apontadas por Alessandra Grandini. Outros entrevistados registraram entre 60 e 130 horas no mesmo período.
Mayara Assis, do Rio de Janeiro, reserva todas as quartas-feiras para acompanhar processos de editais e atualizar portfólios, totalizando 30 horas, mas calcula até 50 horas com outras atividades dispersas. Já a artista baiana Day Sena informou uma média de pelo menos 12 horas diárias, seis dias por semana, o que pode chegar a mais de 300 horas mensais.
Esse esforço ressalta a necessidade urgente de repensar os métodos de fomento cultural vigentes. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, reconheceu em janeiro deste ano que a pasta ainda não avançou na discussão sobre alternativas aos editais tradicionais, que exigem dos artistas uma combinação de habilidades artísticas e administrativas nem sempre compatível com a realidade dos trabalhadores culturais.
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