Cacau apodrece e agricultores da África Ocidental buscam soluções alternativas
A queda acentuada nos preços do cacau nos últimos meses tem provocado impactos significativos em Gana e na Costa do Marfim, que juntos respondem por quase 70% da produção mundial do grão. A desvalorização da commodity levou ao apodrecimento de estoques nos armazéns da África Ocidental e tem feito com que muitos produtores abandonem a cultura para investir em outras atividades.
Mudança no uso da terra
Manu Yaw Fofie, agricultor ganês de 52 anos, relatou à agência Associated Press que precisou ceder parte de suas terras para mineradores ilegais de areia, atraídos pela demanda crescente do setor da construção civil. A mineração, porém, compromete a fertilidade do solo, dificultando o retorno à produção agrícola. Fofie também destacou que sua produção anual de cacau caiu drasticamente, saindo de 300 sacas no auge para uma previsão de apenas 50 sacas em 2025.
Medidas governamentais diante da crise
Na Costa do Marfim, principal exportador mundial de cacau, o governo precisou intervir comprando o excedente de grãos em janeiro para tentar conter os efeitos da crise. O cacau representa cerca de 40% das receitas de exportação do país, enquanto em Gana esse percentual é próximo a 15%. Tradicionalmente, os órgãos reguladores do setor na Costa do Marfim fixam o preço do cacau no início de cada safra e a maior parte da comercialização ocorre por meio de intermediários autorizados, protegendo os agricultores das oscilações do mercado internacional.
Oscilações de preço e impacto no mercado
No entanto, os preços futuros do cacau, que chegaram a ultrapassar US$ 12 mil por tonelada no início de 2024, sofreram uma queda abrupta para cerca de US$ 4 mil, devido ao excesso de oferta em relação à demanda global. Essa desvalorização tornou inviável a compra dos grãos por comerciantes internacionais, ocasionando um acúmulo crescente nos depósitos. Além disso, muitos agricultores que venderam suas safras aos governos ainda aguardam o pagamento há vários meses.
Ajustes nos preços oficiais
Em resposta à situação, Gana flexibilizou as regras de controle de preços, reduzindo em janeiro o valor fixado para o cacau em 28%, passando para 41.392 cedis (aproximadamente US$ 3.881) por tonelada, na tentativa de tornar o produto mais atrativo aos compradores. Recentemente, a Costa do Marfim também diminuiu o preço pago aos produtores para 1.200 francos CFA (US$ 2,13) por quilo, menos da metade do valor anterior, válido para a safra de 2026.
Dificuldades para os produtores
Agricultores apontam que as reduções nos preços oficiais comprometem significativamente suas margens de lucro, especialmente diante dos altos custos de produção. A crise nos preços do cacau ameaça não apenas a economia local, que depende fortemente da cultura, mas também a sustentabilidade das comunidades que vivem da atividade agrícola na região.
