Descoberta revela como bactéria comum do intestino inicia câncer colorretal

Pesquisadores finalmente desvendaram o mecanismo pelo qual uma toxina produzida por uma bactéria comum do intestino penetra nas células do cólon, esclarecendo uma questão que intrigava cientistas há mais de 15 anos. A descoberta não só revela o processo inicial de lesão causada pela toxina, como também sugere uma possibilidade inovadora para bloquear seus efeitos antes que eles desencadeiem o câncer colorretal.

Como a toxina acessa as células do cólon

O estudo, conduzido por uma equipe multidisciplinar liderada pelo Johns Hopkins Kimmel Cancer Center Bloomberg-Kimmel Institute for Cancer Immunotherapy e a Escola de Medicina da Johns Hopkins University, foi publicado na revista Nature. Os resultados demonstram que a toxina BFT, produzida pela bactéria Bacteroides fragilis, precisa se ligar inicialmente a uma proteína do hospedeiro chamada claudin-4 para conseguir danificar as células do cólon.

Segundo a pesquisadora Cynthia Sears, autora sênior do trabalho, a identificação do receptor foi um desafio que demandou várias tentativas ao longo do tempo. “Compreender o funcionamento das toxinas bacterianas abre caminho para novas formas de diagnóstico e tratamento de doenças relacionadas, como diarreia, câncer colorretal e infecções na corrente sanguínea”, afirmou a professora da Johns Hopkins.

Identificação do receptor e bloqueio da toxina

Para encontrar o componente que permitia a entrada da toxina, Maxwell White, doutorando do laboratório de Sears, realizou uma triagem genômica utilizando a técnica CRISPR, em colaboração com o laboratório de Matthew Waldor, da Harvard Medical School. Eles eliminaram genes individualmente em células epiteliais do cólon para verificar quais eram essenciais para a ação da toxina. O resultado apontou a claudin-4 como um receptor indispensável: sem ela, a toxina não se fixava e a proteína E-cadherina, responsável pela barreira protetora do cólon, permanecia intacta.

A descoberta surpreendeu a equipe, pois esperavam que o receptor fosse uma proteína de sinalização, mas a claudin-4 pertence a uma classe diferente. Estudos anteriores também não identificaram toxinas que usem esse mecanismo, já que a maioria delas ataca diretamente suas proteínas-alvo.

Confirmação estrutural e testes em animais

Para comprovar a ligação entre BFT e claudin-4, os pesquisadores da Johns Hopkins uniram forças com os biólogos estruturais F. Xavier Gomis-Rüth e Ulrich Eckhard, do Instituto de Biologia Molecular de Barcelona. Usando técnicas biofísicas, eles mostraram que as duas moléculas formam um complexo estável em laboratório, evidência física da interação necessária para o dano celular.

Em parceria com Min Dong e sua equipe em Harvard, os cientistas testaram uma versão solúvel da claudin-4 que atuava como um “isca” molecular. Essa versão se ligava à toxina, impedindo que ela atacasse as células do cólon dos camundongos. O método protegeu os animais do dano causado pela bactéria, indicando uma possível estratégia terapêutica.

Desafios futuros

Apesar da confirmação da interação, a estrutura experimental detalhada que mostra o encaixe exato entre a toxina e a claudin-4 ainda não foi obtida. Modelos computacionais atuais não conseguiram reproduzir completamente o complexo. A equipe continua estudando para desenvolver tratamentos eficazes baseados nessa descoberta.

Entre os demais autores do estudo estão Jason Chen, Shaoguang Wu, Abby L. Geis e Jessica Queen, da Johns Hopkins, além de Hailong Zhang, Karthik Hullahalli e Jie Zhang, de Harvard. O trabalho contou com apoio financeiro do Bloomberg-Kimmel Institute, Janssen Research and Development, Cancer Research UK, National Institutes of Health e Howard Hughes Medical Institute. Cynthia Sears recebe royalties por publicações gerenciadas pela Johns Hopkins, conforme políticas institucionais de conflitos de interesse.

Rionews

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.