Weintraub no ENEM das maravilhas

Minimizando problemas, enfrentando inimigos imaginários e inflando qualidades inexistentes, o Ministro da Educação brinca com o futuro de milhões de brasileiros.

Depois de um 2019 conturbado para a educação brasileira, 2020 mostrou que também não será um ano fácil. Já nos primeiros dias do ano, as redes sociais foram tomadas de suspeitas de estudantes que logo se provariam verdadeiras: o INEP havia, de fato, trocado o gabarito da prova, o que causou a queda da nota e, obviamente, o desespero dos postulantes a uma vaga no ensino superior.

O erro na correção do ENEM é somente a ponta do iceberg de uma problemática instaurada ainda em 2019. E esse não parece ser nosso maior problema. Contra toda evidência, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, segue negando, suavizando e até mesmo inventando culpados pela crise em que o ENEM se encontra.

Na primeira coluna de 2020, vamos falar sobre o infeliz histórico por trás do erro no ENEM e sobre o que podemos esperar do amanhã – se é que podemos esperar alguma coisa.

 

O melhor ENEM de todos os tempos?

No último dia 17, data da divulgação dos resultados da prova, Weintraub afirmou que aquele havia sido o “melhor ENEM de todos os tempos”. Não demorou muito para que se provasse o contrário e para que o erro, supostamente da gráfica, viesse à tona.

A confusão com as gráficas se arrasta desde o ano passado e tem contornos escusos. Em abril de 2019, a RR Donnelley, empresa responsável pela impressão das provas, decretou falência, e colocou a aplicação do ENEM em risco, já que as provas teriam que ser impressas até, no máximo, o mês de maio.

O Governo não demorou a se movimentar para arrumar a substituta para a RR Donnelley e, ao final de abril, a gráfica Valid, segunda colocada na licitação que havia, inicialmente, escolhido a Donnelley, foi o nome escolhido. No entanto, o procedimento de contratação depois da falência foi feito sem licitação, sob suspeitas de que a própria RR Donnelley tenha direcionado a escolha da Valid. As acusações vão ainda mais fundo: diz-se que a Valid maquiou seu maquinário na tentativa de ser convocada na primeira licitação – o que demonstra que, desde aquela época, a Valid não teria as condições necessárias para atender a uma demanda do porte do ENEM.

Não bastassem os problemas com a lisura da gráfica, é possível detectar mais furos no discurso de perfeição de Weintraub. Segundo o Ministro, a edição foi marcada pelo “respeito ao dinheiro público”; no entanto, a contratação da Valid foi R$ 8.2 milhões mais cara que a da gráfica de 2018.

 

A culpa é da esquerda (?)

Que Weintraub não tem muita afinidade com a esquerda, todos já sabemos. No entanto, seu desapreço, beirando à maluquice – ou à má-fé -, se estendeu àqueles que foram vítimas do erro causado pelo instituto que se encontra sob o comando de sua pasta.

Segundo o Ministro, quem está reclamando da nota é de esquerda, e essa afirmação é feita com base tão somente “no perfil da pessoa”. É dizer que o Ministro, ao invés de se preocupar em resolver a crise, está fuxicando o perfil de quem reclama dela.

Não bastasse isso, o Ministro tem favorecido pessoalmente os pedidos de apoiadores quanto à revisão de notas via Twitter. Assim, contradiz a própria afirmação, a qual fizemos menção acima.

Fica a pergunta que não quer calar: o que Bolsonaro está esperando para destituir Weintraub?

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Leonardo Soares

Muito bom!!!

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