O reflexo da violência na educação

Todos sofrem com a violência urbana - inclusive os estudantes

Imagine chegar no trabalho hoje e, enquanto você redige um relatório, começa um tiroteio do lado de fora. Logo, o tiroteio fica tão intenso que uma das inúmeras balas que passam voando já pode te acertar, e você precisa interromper seu trabalho para se proteger. O tiroteio cessa, mas mesmo assim, seu patrão te libera por medo de que algo lhe aconteça. Chegando em casa, a rotina de violência não acaba, e nova troca de tiros começa.

Agora, imagine crianças e adolescentes tendo que passar por este tipo de situação cotidianamente.

Parece um cenário de guerra. E é. As constantes operações policiais e confrontos com traficantes abrem verdadeiro campo de batalha nas comunidades do município e todo mundo sai prejudicado – a polícia, os bandidos e a população. Em 2019, a Polícia matou 5 pessoas por dia no Estado, sendo responsável por uma a cada três mortes violentas. Por sua vez, os policiais também morrem: apesar da queda nos números, até março deste ano foram 13 vidas perdidas.

Mas os efeitos negativos não se resumem a isso. Apesar de não se tratar do assunto com a responsabilidade devida, a educação é profundamente afetada pela infindável guerra do Rio de Janeiro. Os malefícios não se resumem a falta de aulas: as crianças tendem a desenvolver problemas psicológicos e de aprendizagem, se expõem a riscos físicos e imentais, e até mortes já ocorreram em função da violência.

Morte dentro da escola: uma rotina de violência

Em 2017, Maria Eduarda, de 13 anos, fazia aula de educação física no pátio de seu colégio, em Acari, quando um tiroteio começou. Não pôde voltar à sala de aula: morreu ali, atingida pelos tiros vindos do lado de fora.

No ano seguinte, Marcos Vinicius, de 14 anos, saiu de casa para ir à escola, no Complexo da Maré, mas nunca chegou lá. Encurralado no meio de uma operação policial, foi alvejado e morreu a 100 metros de casa.

Estas duas mortes são, infelizmente, a consequência do grande problema causado pelos tiroteios por toda a cidade. No primeiro semestre de 2019, só no Complexo da Maré, ficaram suspensos 10 dias de aula por conta de tiroteios. Em 2017, a cada dia letivo, três escolas fechavam por medo da violência. Mais da metade das escolas da Maré fechou em algum momento daquele ano, e pelo menos 12 crianças morreram vítimas de armas de fogo na região metropolitana.

O custo invisível da saúde mental

Não bastasse a exposição física, nossas crianças também ficam expostas a sérios danos a sua saúde mental. Um estudo da FGV demonstrou que crianças que convivem em meio a violência tem diversas perdas nas funções cognitivas, como a memória, a capacidade de atenção, de planejamento e resolução de problemas. Além disso, essas crianças têm maior chance de se envolverem em conflitos com os demais.

Estudos apontam, também, que escolas localizadas em zonas de conflito tem alta rotatividade na direção, além de sofrerem com falta de professores, interrupção sistemática das aulas e mau desempenho em provas nacionais de matemática. Os alunos que passaram por nove ou mais dias de conflito no curso do ano letivo tem desempenho duas vezes pior do que aqueles que só se expuseram por dois ou mais dias.

É possível solucionar o problema?

Tirar as crianças dessa situação é uma tarefa complexa, mas necessária. As ações policiais merecem mais atenção no tocante à inteligência, visando sempre evitar o confronto direto, e priorizando as ações táticas. O Estado precisa, também, fornecer pleno apoio psicológico nas escolas, com acompanhamento próximo das crianças e a construção de uma rede de apoio com a comunidade. Assim, ao menos, o dano já ocorrido pode ser minimizado, enquanto o Estado ainda não é capaz de resolvê-lo.

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