Dedo na ferida

O Rio de Janeiro sofre com problemas na saúde, na mobilidade e na habitação há muito tempo. Desde séculos passados, com a rápida urbanização quando ainda éramos capital e gestões pouco preocupadas em solucionar os verdadeiros problemas da cidade, nossas mazelas vem se acumulando e trazendo sofrimento à população.

O surto de coronavírus, situação grave pela qual passa o mundo e da qual o Rio de Janeiro não escapa, serve para jogar luz sobre todas essas deficiências com que convivemos há séculos. Os hospitais em colapso com filas de espera para respiradores de hoje são os mesmos que, até ano passado, não tinham equipamentos, leitos e sequer papel higiênico.

Pergunte a qualquer profissional da rede pública de saúde carioca se, em algum momento, haviam condições plenas de trabalho. Nunca houve, e não será nesse momento que Crivella fará questão de criá-las. Pelo contrário: seu afã eleitoreiro faz com que tomógrafos vão parar dentro da Igreja Universal, da qual é bispo, sob o pretexto de “não haver espaço”.

A cidade também já passava por uma gigantesca crise de empregos antes mesmo da COVID-19. Afundada pela crise do petróleo e por anos de má gestão, o número de vagas informais no Rio cresceu três vezes mais do que a média nacional. Agora, todos esses trabalhadores empurrados para a informalidade pela falta de estrutura da cidade se veem sem meios de subsistência numa crise que obriga a todos a ficarem em casa.

Também a moradia e o transporte não ficaram ruins com a pandemia. A favelização do Rio de Janeiro remonta ao final do século retrasado, e muito poucos políticos se preocuparam em tornar a favela lugares com melhor estrutura sanitária. Não à toa que, até os dias de hoje, a Rocinha ainda é um local com alta incidência de tuberculose, doença erradicada de países ricos e altamente relacionada com a insalubridade e falta de ventilação adequada.

No transporte, por sua vez, mesmo antes da COVID-19, todos nós já dividíamos espaços fechados em absoluto aperto nos ônibus, trens e BRTs da cidade. Isso porque desde 2016, com os BRTs e os VLTs, não se vê uma política pública séria de modernização ou o mínimo de dignidade dentro dos transportes públicos do Rio.

O coronavírus, mesmo não sendo somente uma gripezinha, colocou o dedo em uma ferida aberta de um problema muito maior: as reais condições da capital carioca, uma cidade que poderia ter condições de passar por todo esse momento de uma forma melhor, se não tivéssemos acumulado problemas estruturais durante décadas de irregularidades e má gestão.

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